segunda-feira, 4 de maio de 2015

PAGUE-SE A GUERRA COM A PAZ




“Ó doce e amado esposo,/ (…) Porque is aventurar ao mar iroso/
Essa vida que é minha e não é vossa?”
(Luís de Camões, in “os Lusíadas”, c. IV, 91)

Pague-se a guerra com a paz, porque é pela paz que o homem, de boa vontade, luta, chamando a si o único interesse de salvaguardar a espécie humana.
O homem não foi feito para levar a guerra contra seu semelhante. Não devia estar na sua massa de sangue jamais pegar em armas para destruir quem com ele devia comer à mesma mesa das mesmas iguarias, dos mesmos manjares.
Terminado que fora este banquete uma única luz resplandeceria no horizonte: a luz da concórdia e do melhor entendimento nunca sob a discórdia que pudesse levar a qualquer tipo de contenda.
Fugindo de todas as escaramuças e de todas as desordens, o homem merece que seja tomado como verdadeiro homem, dentro da melhor aceção da palavra enquanto se opõe aos deuses e aos seres irracionais. E não como um lobo, “homo homini lupus”.
O homem foi concebido para se entender mas não num entendimento egoísta ou solipsista, enquanto olha única e simplesmente para o seu umbigo.
Dizer “homo” é concebê-lo como tendo a razão a presidir a todos os relacionamentos e a comportar-se com toda a dignidade.
 “Si vis pacem, para bellum”, como dizia Cícero, traduzível numa tradução bastante livre: “Se não queres ser atacado, melhor será que prepares a tua própria defesa”.
Mas atenção, esta defesa obedece a uma capacidade de raciocínio, sabendo levar a água ao seu moinho, sem complicar o percurso do melhor entendimento.
O mesmo se poderia entender com esta máxima “quem quiser comover os outros, deve provocar primeiro em si a comoção, porque as lágrimas são contagiosas”.
Ora, aqui reside também o devido e único comportamento que assiste ao homem, saber encontrar a compreensão em todas as situações vitais para não entrar jamais em contenda.
Sabendo que o homem é o único ser à flor da terra que tem dificuldade em reconhecer a sua própria espécie, daí andar permanentemente às turras, mas por outro lado o único ser racional cuja capacidade é única para saber distinguir o trigo do joio, só lhe assiste a única alternativa: sentar-se frente a frente ao seu possível “inimigo” e tentar por todos os meios entrar em diálogo construtivo, antes que as palavras se acabem. E bom será que se pense que as palavras não estarão jamais gastas, antes terão dentro de si aquele miolo que dá sustentabilidade ao saber verdadeiramente estar em quaisquer situações que serão benéficas ao homem.
Posto isto e nestes termos, não há guerra alguma que mereça estar nos bastidores do escondimento para ser levada à ribalta.
É o menor dos condicionalismos, porque a condição única que assiste ao homem não é outra senão a de olhos nos olhos, sem ramelas a encobrir algum cenário que não seja suficientemente captável por quem tem à sua frente.
  Esgrimir argumentos de que há uma terra que já pertenceu a uma determinada classe humana e por circunstâncias e demasiados reveses acabou por passar para uma outra parte nada é justificável que se pretenda extorqui-la. Ou não terá sido extorquida a parte humana que dela era, deveras, merecedora e que, por inerência, a deverá, de novo, requerer?
Ao homem o que é do homem e de toda a raça humana. Reivindicar aquilo que pertenceu sempre à outra parte não passa de um simples roubo que levará a escaramuças sem tréguas, onde a lei do mais forte tome para si o direito estúpido de a açambarcar.
No homem não há o mais forte ou mais fraco. Há o verdadeiro homem que se gere por razões e por sentimentos. Fora desta dupla no seu comportamento não passa de uma ferocidade assoberbada. E que leva até aos extremos, que é a de lutar pelo simples ato trazer aquilo que sempre pertenceu à outra parte.
 Qualquer distúrbio a que alguém se agarre, não passa de uma animalidade, de uma irracionalidade cuja justificação é não ter justificação alguma.
Não há motivos de ordem alguma para o homem entrar em conflito com o homem. Antes, se motivos houvera o único a cumprir-se na senda do bom entendimento é o de cada um saber levar a água ao seu moinho para que este moinho funcione nas melhores condições, o que significa dizer que só uma levada de água se justifica: a água fresca de uma mente sã num corpo são cujo cumprimento não é outro senão o de saber dar-se as mãos para que o moinho de uma só pedra moa o melhor cereal e o produto final seja uma farinha que mitigue a fome de todo o único ser humano.
“Nosso amor, nosso vão contentamento,/Quereis que com as velas leva o vento?” (o .c.). Ou ainda: “Como, por um caminho duvidoso/Vos esquece a afeição tão doce nossa” (o. c.)?
Ora, aqui se tem como não é compreensível que se guerreie quem quer que seja, sabendo que uma das partes em litígio não sobreviverá e quem irá ficar a ser prejudicada é “afeição tão doce nossa”.
Dois exércitos em linha de batalha não são nem mais nem menos que pretender que uma das partes domine a outra sem olhar a meios, sabendo se estes meios não têm outro especial sentido que o da liquidação da parte que se ofereceu com menor capacidade de resposta.
“Porque de mi te vás, ó filho caro,/A fazer o funéreo enterramento/Onde sejas de peixe mantimento?” (o. c., 90).
 Se o “doce e amado esposo” se vai enterrar nesta aventura, também “ o filho caro” se vai acabar por se perder nesta guerra que só de estupidez poderá ser classificada.
Descubra-se a paz, porque para qualquer tipo de guerra não há a menor justificação.
O homem beligerante não foi concebido no seio materno. Foi-se fazendo à medida que foi chamando a si um pretenso direito de usurpação de terras que não lhe pertenciam mas que se julga poder reivindicar.
Magoa qualquer partida, mais ainda quando essa partida tem por objetivo único o de pegar em armas para liquidar quem oferece resistência.
Também a própria natureza inerte e sem sentimentos se condoía quando “De mais perto respondiam (os montes)/ Quase movidos de alta piedade” (o. c. 92).
Quer-se melhor argumento que o argumento desta natureza sem sentimentos aparentes e que os transforma em “alta piedade”, quando se apodera deste triste campo de batalha numa refrega sem vencidos e sem vencedores, mas com este campo inundado de sangue humano?
Volte-se à busca da paz verdadeiramente conciliadora, onde a única regra é a do aperto de mão com os olhos bem reluzentes sem veios de qualquer presença de sangue.
  
Torres Vedras,1 de maio de 2015

Drº Manuel Ponciano

domingo, 3 de maio de 2015

HOMENAGEM AOS COMBATENTES TORRIENSES FALECIDOS - 31 DE MAIO DE 2015


Irão decorrer, no próximo dia 31 de Maio de 2015, as cerimónias evocativas do 13º aniversário da inauguração do "Monumento aos Torrienses Mortos na Guerra do Ultramar", no campo da Várzea, em Torres Vedras.

Em simultâneo festeja-se o 89ª aniversário da abertura de uma Delegação da Liga dos Combatentes em Torres Vedras (hoje Núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes).

Programa detalhado:

- 10H15 - Missa na Igreja da Graça em honra dos Combatentes Falecidos (presente estandarte e clarim)

- 11H45 - Concentração no Campo da Várzea, em frente ao Tribunal de Torres Vedras

- 12H15 - Cerimónia Militar no Campo da Várzea, junto ao Monumento
                   - Deposição de  flores
                   -  Honras militares e oração fúnebre
                   - Imposição de condecoração a antigos combatentes
                   - Alocuções alusivas ao tema


- 13H00 - Almoço/Convívio no Restaurante "O Voluntário"



Os Combatentes por Portugal e, em particular os Torrienses, merecem-nos todo o respeito e consideração
A Direcção do Núcleo de Torres Vedras da Liga dos Combatentes apela a todos os antigos combatentes e seus familiares para o seu apoio e solidariedade com esta cerimónia, honrando-nos com a sua presença.

Monumento em honra dos Torrienses Mortos na Guerra do Ultramar

Este belo Monumento é um dos mais significativos e originais de Portugal. Foi inaugurado em 8 de Junho de 2002 e evoca os nomes de cinquenta e dois Torrienses que morreram na guerra do ultramar. É da autoria do Coronel José Núncio e resultou do trabalho realizado por uma Comissão Executiva criada para o efeito no âmbito da Assembleia Municipal de Torres Vedras.
Nele se encontra inscrito o seguinte poema de Jaime Umbelino:

"Eles,
Fizeram guerra sem saber a quem
Morreram nela sem saber porquê ...
Então por prémio ao menos se lhes dê justa memória a porjectar no além"
(Jaime Umbelino, 2002)

Relação dos Torrienses cujos nomes se encontram inscritos na base do Monumento do Campo da Várzea



CICLO DE PALESTRAS SOBRE A I GRANDE GUERRA (CONT)


Dando continuidade ao seu Ciclo de Palestras sobre a I Grande Guerra iniciado em 2014, vai realizar-se a segunda fase deste ciclo no próximo dia 30 de maio de 2015, a partir das 15 horas.

As Palestras decorrerão em espaço cedido pela Câmara Municipal de Torres Vedras e contarão com a presença dos:

- Major-general de Infantaria - Inspector Geral da GNR, Luís Tavares Nunes
    (Enquadramento da Situação e Potências Beligerantes)

- Coronel de Infantaria (Reformado), Américo Henriques
    (Frente Ocidental em 1915, Trincheiras)

- Coronel de Infantaria (Reformado), Manuel Veiga Mourão
    (A Campanha de Gallipoli)


Moderador:
- Professor Doutor, Guardado da Silva


Dirigido ao Público em Geral - Entrada Livre




DIA DO COMBATENTES - MOSTEIRO DA BATALHA 9ABR2015

Fig. 01 - Mosteiro da Batalha

Presididas pelo CEMGFA - General Artur Pina Monteiro, realizaram-se no Mosteiro de Santa Maria da Vitória - Batalha, as cerimónias comemorativas do dia do Combatente, a evocação do 97º aniversário da Batalha de La Lys e a 79ª Romagem ao túmulo do Soldade Desconhecido.
A cerimónia contou com a presença da senhora Secretária de Estado Adjunta e da Defesa Nacional - Berta Cabral -, do Chefe da Casa Militar do Presidente da República - Tenente-general Carvalho dos Reis e dos Presidentes das Câmaras Municipais de Leiria e da Batalha.
Estiveram, ainda presentes, o antigo Presidente da República, General Ramalho Eanes, os Chefes de Estado-maior da Marinha e Autoridade Marítima Nacional - Almirante Luís Macieira Fragoso -, da força Aérea Portuguesa - General José António Araújo Pinheiro e o Comandante da Instrução e Doutrina do Exército - Tenente-general Rovisco Duarte em representação do Chefe de Estado-maior do Exército.
Estiveram, igualmente presentes, delegações dos Adidos Militares acreditados em portugal, representantes dos Comandantes da Guarda Nacional Republicana, da Policia de Segurança Pública, da Cruz Vermelha Portuguesa e da Royal British Red Cross e das Associações Profissionais de Militares.
De salientar, pelo seu valor simbólico, a presença do General Ramalho Eanes, muito acarinhado pelos presentes.
Fig. 02 - Chegada ao recinto do antigo presidente da república General Ramalho Eanes

A cerimónia militar envolveu os três ramos das Forças Armadas e foi integrada por muitos combatentes transportando os estandartes dos Núcleos da Liga dos Combatentes e de outras organizações de combatentes.
O programa inciou-se com uma missa de sufrágio em honra dos combatentes falecidos, celebrada na Igreja do Mosteiro pelo Bispo das Forças Armadas e das Forças de Segurança – D. Manuel Linda.
Após a recepção das Entidades civis e militares e da prestação das honras militares à Entidade que presidiu à cerimónia, o programa prosseguiu com as alocuções do Presdente da Direcção Central da Liga dos Combatentes - General Chito Rodrigues e do General CEMGFA.
Seguiu-se o desfile das forças em parada, a que se juntaram os estandartes dos Núcleos da Liga dos Combatentes e de outras Associações. As entidades convidadas entraram depois no Museu das Oferendas. À saída, para a Sala do Capítulo, os convidados passaram pelos estandartes dos Núcleos e das Associações, cumprimentando os porta-estandartes, que se encontravam perfilados nos claustros do Mosteiro Santa Maria da Vitória.

Fig. 03 - Drª Berta Cabral cumprimenta o porta estandarte do Núcleo de Torres Vedras

O Núcleo da Liga dos Combatentes de Torres Vedras esteve presente nesta cerimónia. O seu estandarte, transportado pelo sócio combatente, João Coutinho Lopes, integrou o desfile.
Fig. 04 - Estandarte do Núcleo de Torres Vedras entre os dos Núcleos de Caldas da Rainha e Peniche

A alocução, pela Entidade convidada na sala do Capítulo, onde repouso o túmulo do Soldado desconhecido, esteve este a cargo do Coronel de Infantaria Reformado, Américo Henriques, que dissertou sobre o tema “ Combatentes por Portugal”.
Fig. 05 - Janela na Sala do Capítulo


No fim da alocução procedeu-se à deposição de coroas de flores junto do túmulo do Soldado Desconhecido pelas Entidades presentes, pela Liga dos Combatentes e pelas Associações de Combatentes e Profissionais de Militares presentes, e entre elas a AOFA, com honras militares em homenagem aos caídos em defesa da Pátria.
Fig. 06 - Claustros do Mosteiro da Batalha

A cerimónia terminou com o hino da Liga dos Combatentes entoado pelo coro da Cruz Vermelha Portuguesa e o Hino Nacional tocado pela banda da Marinha.
Seguiu-se um almoço de confraternização no Regimento de Artilharia 4 em Leiria para os combatentes e seus familiares.

Torres Vedras, 09 de Abril de 2015

José da Costa Pereira, Tenente-coronel

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

10º Aniversário do Monumento aos Combatentes do Ultramar - Moledo - Lourinhã


Monumento aos combatentes do Ultramar - Moledo - Lourinhã

Um grupo de antigos combatentes de Moledo - Lourinhã, apoiados pela Liga dos Combatentes (Núcleo de Torres Vedras) vai realizar uma cerimónia evocativa do 10º aniversário da inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, no dia 25 de Janeiro próximo.
A cerimónia que conta com a presença das autoridades locais e do Presidente da Direcção Central da Liga dos combatentes (Tenente-General Chito Rodrigues), terá o seguinte programa:
08.00 - Içar da Bandeira
09.45 - concentração junto da igreja paroquial de Moledo
10.00 - Missa solene
11.00 - Concentração junto do monumento para honras militares e imposição de medalhas a antigos combatentes

13.00 - almoço convívio

Junta-te a nós.

O Presidente da Direcção do Núcleo
José da Costa Pereira

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

NÚCLEO DE TORRES VEDRAS DA LIGA DOS COMBATENTES REÚNE EM SOBRAL DE MONTE AGRAÇO


O Núcleo da Liga dos Combatentes de Torres Vedras vai realizar, no próximo dia 17 de Janeiro de 2015, pelas 14h30, no Auditório da Câmara Municipal de Sobral de Monte Agraço, uma apresentação da Instituição aos antigos combatentes, Instituições e população do concelho.
A Liga dos Combatentes, os seus objectivos e programas, assim como a acção que tem vindo a ser desenvolvida pelo Núcleo, são um dos temas a apresentar, sendo igualmente feita uma apresentação sobre PPST (Perturbação Pós-Stress Traumático), vulgarmente conhecida como “stress de guerra”, suas causas, sintomas e tratamento.

Se és ou foste combatente aparece e coloca as tuas questões sobre esta temática.


Pela Direcção do Núcleo

José da Costa Pereira
Tenente-coronel


domingo, 28 de dezembro de 2014

JOSÉ LOBATO FALCÃO, ALFERES MUTILADO INVÁLIDO DA I GRANDE GUERRA

Um Combatente e um Resistente Inconformado


Aproxima-se do fim aquele que foi o ano do primeiro centenário do inicio da I Grande Guerra (1914-1918), também conhecida pela Grande Guerra Europeia, ou I Guerra Mundial. Muitas foram as evocações desta efeméride, muito se escreveu e muito se discutiu sobre este conflito que marcou o inicio do Século XX e cujas lembranças ainda hoje se mantêm vivas na memória de muitos portugueses.
Por mais que se fale, se evoque e se discuta, muito ficará sempre por dizer e por recordar. Foi um conflito que mobilizou cem mil soldados de Portugal para combaterem em três frentes, Angola, Moçambique e na Flandres. Soldados mal preparados, mal armados e mal equipados. Além de que a entrada no conflito não era consensual na sociedade portuguesa.
Foi assim um conflito que, além dos soldados mobilizados, envolveu uma grande parte da população portuguesa e cujas consequências se iriam fazer sentir, por muitos e longos anos.
Esta guerra provocou aos portugueses milhares de mortos, de feridos e de prisioneiros de guerra, e esteve na génese de uma mudança de regime, com a implantação de uma ditadura repressiva que iria oprimir o povo português por quarenta e oito longos anos.
Quando se fala do conflito e nas suas consequências esquecemo-nos, por vezes, que muitos daqueles que sofreram as agruras da guerra, ficando com marcas no seu corpo, além de serem abandonados pelo novo poder, então instituído por Sidónio Pais, não foram poupados quando, no regresso se fez o ajuste de contas.
É o caso de um combatente desta guerra, republicano convicto e gravemente ferido na frente de combate na Bélgica, em 28 de Outubro de 1918, um mês antes do Armistício. Uma vez regressado a Portugal e por não concordar com a ditadura imposta em 28 de Maio de 1926, acabará por ser preso e deportado para as colónias.
Defensor da instrução pública, mandou construir e ofereceu ao Estado Português a primeira escola primária que existiu no lugar de Casa Branca – Alvega Abrantes.
A vida deste homem, assim como a de muitos outros nas mesmas circunstâncias, a forma como enfrentaram as adversidades da guerra e, mais tarde, viveram os tempos difíceis da deportação e assistiram, á distância, ao sofrimento dos seus familiares, são actos dignos de registo e de não caírem no esquecimento.


JOSÉ LOBATO FALCÃO[1]

.José Lobato Falcão nasceu na pequena localidade de Ortiga, Novo Redondo - Alvega, concelho de Abrantes e Distrito de Santarém, a 23 de Abril de 1898, filho de João Lobato e de Luíza Marques.
Com 18 anos oferece-se para prestar serviço militar, sendo alistado como voluntário no Regimento de Artilharia nº 8 (RA 8), em Abrantes, no dia 12 de Janeiro de 1916.
Mobilizado para a frente Ocidental, em França, embarca em Lisboa no dia 17 de Março de 1917, como soldado servente com o nº 447 da 1ª Bataria do 3º Grupo de Busca de Alvos, do RA 8. Chega ao Teatro de Operações da Grande Guerra, em França, no dia 25 de Março de 1917 e é integrado, com a sua Bataria, na 59ª Divisão de Artilharia Britânica.
Combatendo ao lado dos ingleses é promovido a 2º Sargento a 01 de Janeiro de 1918, sendo gravemente ferido em combate, n tórax, no dia28 de Outubro, deste mesmo ano.
Foi submetido a várias operações no Hospital Britânico nº 1 e em hospitais portugueses de campanha, vindo a ser dado como incapaz para o serviço militar, por razão dos ferimentos. Regressa a Portugal, em 1919, desembarcando em Lisboa no dia 30 de Abril.
Em 1921, a 5 de Abril, casa-se com Joaquina de Matos Miguens que era natural da Aldeia da Mata - Alter do Chão, professora primária com quem tem duas filhas: Lisete, nascida a 23 de Dezembro de 1921 e Armandina de Matos Miguens Falcão, nascida a 31 de Julho de 1924.
Deduz-se que continuou ligado ao serviço militar pois em 3 de Novembro de 1923 é promovido ao posto de Alferes, por força da Lei 1464, de 15 de Agosto de 1923, sendo então 1º Sargento reformado.
Acusado de estar envolvido no levantamento militar reviralhista fracassado, conhecido por revolta do Castelo, e que eclodiu por todo o país na noite de 20/21 de Julho de 1928, com o objectivo de afastar a ditadura militar, foi demitido do Exército e deportado para Angola. Nesta província ultramarina foi-lhe fixada residência na cidade de Sá da Bandeira, onde terá residido durante dois anos. Foi durante este período de deportação que travou amizade com o sindicalista Mário Castelhano[1], igualmente deportado e a quem ofereceu a única fotografia que se conhece dele.
Talvez devido ao levantamento militar que se deu em Angola, em Março de 1930, é transferido para a Madeira, onde continua como deportado. Desconhece-se a data exacta da transferência de Angola para a ilha da Madeira mas sabe-se que, em Setembro de 1930, está com residência fixa no Funchal, onde apresenta um requerimento ao Comandante Militar solicitando-lhe que interceda para não ser, de novo transferido, agora para os Açores.
Em 25 de Fevereiro de 1931 regressa ao continente onde se apresenta na Policia Política e declara ir residir em Casa Branca, freguesia de Alvega e concelho de Abrantes. Em 1947, ainda reside nesta região de Abrantes, pois fez-se sócio da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, na Sub-agência existente naquela Vila.
Mais tarde virá residir para Lisboa pois quando faleceu, em 20 de Janeiro de 1973, tinha como morada a rua Pinheiro Chagas nº 27, 3º Esq em Lisboa.
Encontra-se sepultado no cemitério de S. Miguel, em Torres Vedras, em campa com os símbolos da Liga dos Combatentes da Grande Guerra (Talhão nº 9, fila 4, coluna 3 e Coval nº 9).
Também se sabe, por conhecimento da correspondência trocada, entre a Direcção Central da Liga dos Combatentes da Grande Guerra e a Agência de Torres Vedras, na década de 1960, que foi ele quem comprou os mármores para a sua sepultura e que requereu autorização para ser sepultado em Torres Vedras, com os símbolos da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.
Desconhece-se, entretanto, a razão porque quis ser sepultado em Torres Vedras se não se lhe conhecem familiares nesta região, nem existem registos da sua passagem pelo Lar de Veteranos Militares de Runa, que acolheu centenas de antigos combatentes da I Grande Guerra.

É nossa intenção continuar a pesquisar dados sobre este combatente e a dá-los a conhecer.
Para isso, pede-se a quem souber de elementos que possam levar ao contacto com algum familiar deste antigo combatente, o favor de entrar em contacto com:

José João da Costa Pereira
Tenente-coronel
Presidente do Núcleo da Liga dos Combatentes de Torres Vedras
Rua 9 de Abril, 8 – 1º
(Apartado 81)
2560-301 Torres Vedras
Telefs 261096496 – 925303511 – 964123931



[1] “ (…) Mário Castelhano nasceu em Lisboa, em 1896 e faleceu no Tarrafal, Cabo Verde, a 12 de Outubro de 1940. Foi um destacado militante anarco-sindicalista dos anos 20 e 30. De origem modesta, começou a trabalhar aos 14 anos na Companhia Portuguesa dos Caminhos-de-Ferro, tendo participado nas greves de 1911, 1918 e 1920, vindo a ser despedido pela sua participação na organização destas últimas greves.
Passou, então, a ocupar-se em actividades de escrituração no Sindicato de Ferroviários de Lisboa, na Federação Ferroviária e na Confederação Geral do Trabalho. Membro da comissão executiva da Federação Ferroviária, ficou com o pelouro das relações internacionais e a responsabilidade de redactor-principal do jornal “A Federação Ferroviária”. Dirigiu, também, os jornais “O Ferroviário” e “O Rápido”. Participou na reorganização do Conselho Confederal da CGT, após o 28 de Maio de 1926, de onde saiu eleito responsável do novo secretariado e redactor-principal de “A Batalha”. Após a tentativa insurreccional de Fevereiro de 1927, a repressão policial acentuou-se, a CGT é ilegalizada e o jornal “A Batalha” assaltado, vindo Mário Castelhano a ser preso em Outubro do mesmo ano e deportado no mês seguinte para Angola, onde ficou dois anos.
Em Setembro de 1930, foi enviado para os Açores e em Abril de 1931, para a Madeira, participando na insurreição desta ilha contra o Governo. Com a derrota deste movimento, foge da ilha, embarcando clandestinamente no porão do navio Niassa.
Em 1933, estava de novo à frente do secretariado da CGT e faz parte do grupo que organiza o 18 de Janeiro de 1934. Preso a 15 de Janeiro, três dias antes do movimento, é condenado pelo Tribunal Especial Militar a 16 anos de degredo. Embarcou em Setembro de 1934, com destino à Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo, e em Outubro de 1936, para o campo de concentração do Tarrafal, onde morreu.
Foi condecorado postumamente com a Ordem da Liberdade (…)” (in in Manuel Loff, Sofia Ferreira - © 2010 CNCCR - Comissão Nacional para as Comemorações do Centenário da República).


Fontes Consultadas
AHM, Arquivo Histórico Militar

Universidade de Évora, Projecto Mosca (http://www.cidehus.uevora.pt/)





[1] Esta fotografia, a única que se conhece do Alferes José Lobato, encontra-se na Universidade de Évora no arquivo Histórico e Social “A mosca” e foi oferecida pelo Alferes Lobato a Mário Amadeu Duarte Castelhano, seu companheiro de cativeiro em Angola – Sá da Bandeira. Tem, no seu verso, a seguinte dedicatória “ (…) ao amigo e camarada de deportação, Mário Castelhano, o Alferes Mutilado da g. guerra (…)” (Novo Redondo, Abrantes-Alvega, 23/12/1929).